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Fico a admirar as formas de concreto. Rua abaixo, rua acima, como se esperasse delas uma resposta. E o tempo insiste em passar. Noto as rugas de expressão que outrora não estavam ali. Os fios de cabelo branco que se multiplicam, como quem diz “aqui você não manda nada”. O frio chega e traz consigo outra triste constatação: hoje você não se encontra aqui e por isso não posso te aquecer. Qual o sentido dele então? Se é que o frio faz sentido. Aliás, alguma coisa faz? Do alto de nossa janela, volto a vislumbrar essa pequena selva de pedra. Cinza, fria, impessoal, distante. E na minha mente fica a pergunta “porque és assim?”. Claro que ninguém há de me responder isso. Sabe o motivo? Eu tampouco, porém, me contento com o silêncio. Parece que até ele combina com a paisagem. Parece que até ele faz sentido. Sentido aliás que é outra característica marcante dessa vida de experiências, que no momento se encontra no capítulo paranaense. Sim, te juro que é a maior das verdades. Palavra! Me acredite! Não buscava o amor, buscava o sentido da vida. Tinha a certeza que o primeiro era intrínseco ao segundo. Posso aqui encaixar onomatopéias? Gosto de construir imagens mentais. Quiçá seja a minha “didática”. Mas bem, parece-me que estava certo. Ou ao menos que não estava errado no todo. Ou de todo errado - já que o bom português me persegue. Você apareceu. Reapareceu. E a selva virou jardim, florido, bonito, com cheiro de amora. O sol insistiu em sair no horizonte e bem, você meu bem, fez sentido. Me deu um filtro para a vida: nosso amor. Eu agradeço. Curitiba também. Amém Amor.
A.M. 04.04.2013.
O gosto do mate no teu beijo, do tempero na tua boca, o cheiro do dia a dia que por entre as narinas me brinda cada manhã. A certeza da vitória silenciosa da alegria sobre a tristeza. Passa a solidão, passa a tempestade, fica sempre teu sorriso, intocado pelo tempo. A fração única e perfeita do teu melhor pra mim!
A.M. 28 02 2013
nosso amor deu tão certo
que começarão a nos olhar com inveja
e acabarão organizando
romarias
para vir nos perguntar
como fizemos.
Mario Benedetti
por Henrique Fendrich
A solidão de um homem pode ser medida através de uma simples endoscopia. Não digo que ela apareça como resultado do exame – embora eu suspeite que a solidão fique próxima ao estômago. Mas as circunstâncias que envolvem essa endoscopia são capazes de revelar o maior ou menor grau de solidão da pessoa. Explico. Não é bom que o homem fique só, mas muitos deles buscam justamente isso. E às vezes conseguem verdadeiras proezas. O homem é capaz de morar sozinho por toda uma vida. É capaz de viver para sempre isolado do resto da humanidade – ser um eremita! Consegue se sustentar e até mesmo se divertir sem ninguém por perto. Duas coisas, no entanto, o homem ainda não consegue fazer sozinho: reproduzir a espécie e fazer uma endoscopia.
E não adianta insistir: se você não tiver um acompanhante, não deixarão que faça o exame. As enfermeiras sabem que, quando terminá-lo, você irá ficar tão grogue que mal conseguirá sair de lá. É por isso que exigem a presença de alguém ao seu lado – afinal, elas são moças ocupadas e, infelizmente, não podem te acompanhar ate a sua casa. E é por causa dessa exigência que a endoscopia revela a solidão de uma pessoa.
Se a pessoa morar com os pais, não há com o que se preocupar. Certamente um deles estará com você durante o exame. Se a pessoa for muito idosa, é bem possível que um filho esteja acompanhando todo o tempo. Não sei como funciona para os casais, mas receio que não seja tão óbvio assim. Ora, nem sempre é possível se livrar do trabalho. A mulher pode estar fazendo uma endoscopia e homem pode estar impedido de ir até lá – e vice-versa. Acho que estou sendo meio pessimista – e nada romântico.
Mas vamos imaginar que o leitor não more com os pais – mais do que isso, mora em outra cidade, longe, longe, dos seus pais e de toda a família. Imaginemos ainda que, neste momento, o leitor não está comprometido com ninguém, nem minimamente – eu sei que é triste, mas estamos apenas imaginando. Faltou dizer que o leitor é jovem. Mora sozinho. Tem amigos, claro. Mas não tão íntimos a ponto de se falarem todos os dias. E, por uma dessas coisas da vida, aconteceu que lhe pediram para fazer uma endoscopia, e você fica sabendo que o exame só sairá caso alguém esteja disposto a te acompanhar.
Que fazer? Você começa a cogitar pessoas e logo descarta algumas – sabe que no horário do exame estarão perdidamente ocupadas com outros negócios. Entre os que sobraram, muitos também não podem. Por fim, você encontra uma pessoa que se disponibiliza a ajudar. Mas no fundo você sabe que está causando um incômodo para ela. Precisará acordar mais cedo – e, na noite anterior, ela precisará dormir tarde – em pleno sábado, dia em que pretendia descansar ou realizar coisas domésticas. Mas vá lá – você precisa desse sacrifício da parte dela. E ela realmente irá, embora atrase um pouco.
Ao terminar o exame – que você jura não ter feito – ela ficará com você numa salinha à parte, esperando diminuir o efeito do sedativo. Depois de alguns minutos, ela te guiará até o carro. Conversarão um pouco. Em seguida, te levará para casa. Fará algumas boas recomendações, e em seguida te deixará – está cheia de coisas para fazer, afinal. E você, como mora sozinho, volta a ficar só. Mas, dessa vez, ninguém te exige a presença de uma outra pessoa. Seria tão bom se exigissem!
olho, paro, penso. enxergo talvez detalhes, tão pequenos, tão íntimos de nós dois, que por vezes questiono a Jeová: “Pai, tu me destes tantos sentidos e sentimentos, porque não me explicastes que alguns nos roubam a respiração e o fôlego?” Eis que ele me assenta, estende a mão sobre mim e diz: “Não te pus no mundo filho meu, para outra coisa que não ser feliz. Porque não gastas o tempo teu vivendo o dom do que lhe oferto. No amor não há virtude maior que a entrega. Desce filho meu, volta pra quem eu te destinei”. E nesse embate peculiar que ocorre na minha mente, vejo dias, horas, minutos, segundos rodarem, compondo em tons e semi tons as notas que o sanfoneiro balbucia em praça público: “ô amor me abraçou e assim comigo brindou… ô lelê, doce ilusão pensar que passarias em vão dessa vida, sem ter amado ou sentido o amor” - A.M.